Receber a indicação de uma amputação é, sem dúvida, um dos momentos mais delicados na vida de um paciente e de seus familiares.
É natural que surjam medos, incertezas e muitas dúvidas sobre o futuro.
No entanto, encaro a amputação não como um ponto final, mas como uma cirurgia reconstrutiva.

O objetivo é remover um membro que causa dor crônica, infecção ou que não possui mais função, para dar lugar a uma nova fase de mobilidade e qualidade de vida.
Este guia foi preparado para que você entenda cada etapa desse processo: desde a decisão cirúrgica até o momento de voltar a caminhar com uma prótese.
💡 Por que a Amputação é Necessária?
Existem diversas razões que levam à necessidade desse procedimento. As causas mais comuns que acompanho em consultório são:
- Complicações do Diabetes (Pé Diabético): Quando feridas não cicatrizam e a circulação está gravemente comprometida.
- Traumas Graves: Acidentes onde a reconstrução do membro não é viável ou resultaria em um pé sem sensibilidade e função.
- Infecções Ósseas (Osteomielite): Casos crônicos que não respondem a antibióticos e colocam em risco a saúde geral do paciente.
- Tumores Ósseos ou de Partes Moles: Onde a remoção é essencial para o controle da doença.
💡Qual o papel da Dra. Isadora no tratamento e na reabilitação de uma amputação?

A Dra. Isadora Guerra é médica formada pela Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL/MG), com residência médica em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, em Campinas/SP.
Aperfeiçoou-se na área de Cirurgia do Pé e Tornozelo por meio de fellowship no Hospital Celso Pierro – PUC Campinas, onde atualmente integra o corpo clínico. É Membro Titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Associação Brasileira de Medicina e Cirurgia do Tornozelo e Pé (ABTPé).
Atua como ortopedista e traumatologista nos serviços do Hospital Celso Pierro – PUC Campinas, do Complexo Hospitalar Prefeito Edivaldo Orsi (Campinas/SP) e da Irmandade da Santa Casa de Vinhedo (Vinhedo/SP).
Por meio do seu consultório em Campinas, ela atua na melhora dos sintomas de dor, no auxilio no processo de reabilitação e protetização associado a melhora da qualidade de vida!
💡 A Engenharia por trás do Coto: O Planejamento Cirúrgico
Muitos acreditam que a amputação é apenas a remoção de um segmento, mas na verdade, é uma plástica reconstrutiva.
Como cirurgiã, meu objetivo é construir um novo órgão de suporte. Para isso, detalhamos três pilares fundamentais:
1. Cobertura Muscular e Miodese (A “Almofada” Biológica)
Não basta apenas cobrir o osso com pele; precisamos de uma interface que suporte carga e realize movimento.
- Miodese e Mioplastia: São técnicas onde fixamos os músculos cortados diretamente ao osso ou uns aos outros. Isso evita que o músculo se retraia (“suba”) e perca sua função.
- Coxim de Proteção: Criamos um acolchoamento que impede que a ponta do osso pressione diretamente a pele contra o encaixe da prótese. Um músculo bem fixado permite que o paciente consiga “contrair” o coto dentro da prótese, facilitando o controle da marcha.
2. Manejo Nervoso e Prevenção de Neuromas
Um dos maiores segredos para um coto sem dor é como tratamos os nervos durante a cirurgia.
- Tração e Corte: Os nervos principais são tracionados suavemente e cortados para que sua extremidade se retraia para dentro do tecido muscular profundo.
- Evitando o Neuroma: Se o nervo for cortado muito “na ponta”, ele pode formar um novelo de fibras nervosas (neuroma) bem onde a prótese aperta, causando dores insuportáveis que impedem o uso do dispositivo. O objetivo é que o nervo cicatrize longe das áreas de pressão.
3. Tratamento Ósseo e Formato Cônico
O osso remanescente precisa ser preparado para não ser agressivo aos tecidos vizinhos.
- Arredondamento (Ressecção Epifisária): As bordas do osso são arredondadas e “lixadas” para remover quinas vivas. No caso da tíbia, por exemplo, fazemos um chanfro (corte inclinado) na parte da frente para que ela não fure a pele.
- Formato Cônico vs. Cilíndrico: O formato ideal do coto é levemente cônico. Isso facilita o “calce” da prótese e a distribuição uniforme das forças de pressão (o chamado total contact), evitando que o peso do corpo se concentre apenas em um ponto.
4. Posicionamento Estratégico da Cicatriz
A cicatriz é a área mais frágil do novo membro.
- Zonas de Carga: No caso de amputações abaixo do joelho (transtibiais), evitamos que a cicatriz fique exatamente na ponta do coto ou sobre a crista da tíbia.
- Fechamento sem Tensão: A pele deve ser fechada de forma que não fique “esticada” demais. Uma cicatriz tensionada tem mais chance de abrir (deiscência) ou de aderir ao osso, o que causa dor e feridas crônicas ao tentar usar a prótese.
💡 Cuidados Pós-Operatórios: Preparando o Caminho para a Prótese

O foco nesta fase é triplo: controlar o inchaço, manter a mobilidade das articulações e cuidar da pele.
1. Controle do Edema e Moldagem (Enfaixamento Compressivo)
Logo após a cirurgia, o coto tende a inchar (edema). Se o volume não for controlado, o paciente não conseguirá fazer o molde da prótese.
- Técnica do Oito: O enfaixamento não deve ser circular (como um torniquete), mas sim em formato de “oito”. A pressão deve ser maior na ponta do coto e diminuir à medida que sobe em direção ao corpo.
- Uso de “Liners” ou Meias de Compressão: Assim que a cicatriz permite, evoluímos da faixa para meias elásticas ou liners de silicone, que ajudam a dar o formato cônico ideal ao coto.
2. Posicionamento e Prevenção de Encurtamentos
Um erro comum é manter o coto elevado em travesseiros ou o joelho dobrado por muito tempo. Isso pode causar contraturas musculares (o músculo “encurta” e a articulação trava).
- Extensão Total: É vital manter o joelho (em amputações abaixo do joelho) ou o quadril (em amputações acima) bem esticados várias vezes ao dia.
- Mobilização Precoce: Se a articulação “travar” dobrada, a prótese ficará desalinhada, causando dor nas costas e dificuldade para caminhar.
3. Cuidados com a Pele e a Cicatriz
A pele do coto passará a ser uma zona de carga, algo para o qual ela não foi desenhada originalmente.
- Higiene Rigorosa: Lavar com sabão neutro e secar muito bem. A humidade entre as dobras da pele pode causar fungos ou dermatites.
- Massagem de Dessensibilização: Orientamos o paciente a tocar e massagear o coto com diferentes texturas (algodão, tecidos macios, toalhas). Isso ajuda o cérebro a entender os novos limites do corpo e reduz a dor fantasma.
- Mobilização da Cicatriz: Uma vez cicatrizado, realizamos massagens circulares para evitar que a cicatriz “cole” no osso (aderência). Uma cicatriz solta e móvel é muito mais resistente à pressão da prótese.
4. Fortalecimento do “Membro Sadio” e do Core
Enquanto o coto cicatriza, não podemos esquecer do resto do corpo.
- Pé Contralateral: O pé que não foi operado passará a carregar todo o peso por um tempo. Ele precisa de cuidados redobrados, especialmente em pacientes diabéticos.
- Equilíbrio e Tronco: Exercícios para o abdómen e braços são iniciados ainda no leito, preparando o paciente para o uso de muletas ou andador antes da chegada da prótese.
💡 O “Timing” da Primeira Prótese
A protetização geralmente ocorre quando o coto atende a três critérios:
- Cicatrização completa (sem pontos ou feridas abertas).
- Estabilização do volume (o inchaço parou de oscilar).
- Formato adequado (cônico ou cilíndrico, sem “pontas” excessivas).
Cuidados Pós-Operatórios: Nos primeiros meses, o uso de enfaixamento compressivo e meias de silicone é fundamental para reduzir o inchaço e dar o formato ideal ao membro para receber a prótese.
💡 Sensação e Dor Fantasma: O que são?

É muito comum o paciente sentir como se o pé ainda estivesse lá. Isso acontece porque o cérebro leva um tempo para se reorganizar.
- Sensação Fantasma: Sentir que pode mexer os dedos ou sentir um toque. É normal e geralmente não incomoda.
- Dor Fantasma: Sensações de choque ou pontada. Nestes casos, utilizamos medicações específicas e técnicas como a Terapia do Espelho para “acalmar” os nervos e o cérebro.
💡 O Processo de Protetização: Quando Começa?
A pergunta que mais ouço é: “Doutora, quando vou voltar a andar?”.
A protetização geralmente começa entre 45 a 90 dias após a cirurgia, dependendo da cicatrização da pele e da redução do inchaço.
O processo envolve:
- Avaliação com o Protesista: Escolha dos componentes (pés de carbono, sistemas de vácuo, etc).
- Molde: É feito um molde de gesso do seu coto para criar um encaixe (socket) personalizado.
- Prótese Provisória: Você começa a dar os primeiros passos para treinar o equilíbrio.
- Prótese Definitiva: Após o coto estabilizar o volume, a prótese final é entregue.
💡 Tecnologia a Serviço da Mobilidade
Hoje, as próteses são leves e altamente tecnológicas.
Existem modelos para diferentes perfis:
- Pés com Resposta Energética: Devolvem o impulso ao caminhar, facilitando a marcha.

- Pés Articulados: Permitem caminhar melhor em rampas e terrenos irregulares.

- Próteses para Banho: Resistentes à água para garantir segurança na higiene.

💡 A Reabilitação: O Caminho para a Independência
A prótese é uma ferramenta, mas quem comanda é você.
A reabilitação exige uma equipe multidisciplinar:
- Fisioterapia: Foco em fortalecer o quadril e o joelho, treinar o equilíbrio e aprender a confiar na prótese.
- Terapia Ocupacional: Adaptação das atividades de vida diária.
- Psicologia: Apoio emocional essencial para aceitação da nova imagem corporal.
💡 Dicas de Ouro para o Paciente Amputado
- Inspecione seu coto diariamente: Use um espelho para ver se há feridas ou áreas vermelhas.
- Higiene rigorosa: Lave o coto e as interfaces da prótese (liners) todos os dias.
- Controle o peso: Ganhar ou perder muito peso faz com que a prótese pare de encaixar corretamente.
O Movimento Não Pode Parar!
A jornada da amputação e protetização é desafiadora, mas o objetivo final — a sua autonomia — vale cada etapa do esforço.
Com o acompanhamento médico correto e os dispositivos modernos, é perfeitamente possível voltar a trabalhar, dirigir e ter uma vida social ativa.
Se você tem dúvidas sobre esse procedimento ou está em busca de reabilitação, procure um especialista. Vamos juntos planejar os seus próximos passos.
Sofreu uma amputação ou tem indicação cirúrgica e quer saber mais sobre as possibilidades de protetização? Agende sua consulta em Campinas e vamos conversar sobre o seu caso.
Referências:
- International Society for Prosthetics and Orthotics (ISPO).
- Manual de Reabilitação em Amputados – ABTPé.
- Atlas of Amputations and Vascular Deficiencies.
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